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QUANDO O AMOR MACHUCA DE NOVO: uma leitura psicanalítica da repetição de escolhas amorosas

Introdução

Não é raro ouvirmos histórias de pessoas que parecem repetir, em diferentes momentos da vida, experiências semelhantes que lhes causam sofrimento. Uma das situações mais frequentes é a de mulheres que, mesmo após vivenciarem relacionamentos abusivos, voltam a se envolver com parceiros que apresentam comportamentos parecidos. Esse fenômeno provoca espanto e julgamento em familiares e amigos: “Como pode ela aceitar passar por isso novamente?”

A psicanálise oferece uma explicação profunda para esse enigma humano. Freud chamou de compulsão à repetição a tendência inconsciente de reviver situações dolorosas, mesmo que tragam prejuízo. Neste artigo, apresentaremos um caso hipotético, explicaremos de forma simples a teoria freudiana e mostraremos como a terapia psicanalítica pode tratar esse padrão.

O Caso de Maria

Maria, nome fictício para o caso, de 32 anos, chega ao consultório angustiada. Desde os 20 anos, ela se envolveu em três relacionamentos abusivos. Seus parceiros tinham em comum atitudes controladoras, manipulação emocional e episódios de agressividade. Cada término foi marcado por dor intensa, perda de autoestima e sentimentos de fracasso.

Mesmo assim, após algum tempo sozinha, Maria volta a se sentir atraída por homens com o mesmo perfil. Agora, em seu quarto relacionamento, percebe sinais semelhantes de abuso e não entende por que repete esse ciclo. Ela mesma afirma: “Eu prometo a mim mesma que não vou passar por isso de novo, mas parece que não consigo evitar.”

O caso de Maria ilustra uma questão central da psicanálise: a tendência de repetir, em vez de simplesmente lembrar ou aprender com as experiências passadas.

A compulsão à repetição em Freud

Freud observou, em sua clínica, que muitos pacientes reviviam traumas e situações de dor sem perceber. Essa compulsão à repetição não é um ato consciente, mas uma força inconsciente que leva o sujeito a retornar, de maneira quase inevitável, ao mesmo tipo de vivência.

De forma simples, podemos dizer que a pessoa não apenas recorda o trauma: ela o encena novamente em sua vida atual. Diante disso, essa repetição se torna uma tentativa inconsciente de dominar a situação que, no passado, foi vivida como insuportável. Porém, como o processo não é consciente, a pessoa acaba apenas reproduzindo o sofrimento, sem conseguir transformá-lo.

No caso de Maria, sua atração por parceiros abusivos pode ser entendida como uma busca inconsciente de reviver uma experiência antiga, possivelmente ligada a sua história familiar ou a vínculos precoces marcados por dor e desvalorização. Por que Maria repete?

Algumas hipóteses psicanalíticas ajudam a compreender a repetição:

Talvez por um roteiro inconsciente aprendido na infância. Se Maria cresceu em um ambiente em que o afeto estava misturado com controle ou violência, pode ter internalizado esse modelo como referência de vínculo amoroso. Pode ser o caso de uma familiaridade do sofrimento, pois, o que já é conhecido pode ser paradoxalmente “seguro”. Há ainda a hipótese de relações abusivas, por mais dolorosas que sejam, podem parecer familiares e, por isso, atraentes inconscientemente. Ou ainda motivada por uma culpa inconsciente. Sim, pois, algumas pessoas carregam uma sensação de não merecer felicidade plena e acabam se colocando em situações de punição. Contudo, a hipótese mais frequente é a tentativa de elaborar o trauma. Neste caso, cada novo relacionamento abusivo seria inconscientemente, uma tentativa de enfrentar e dominar a dor do passado. Mas, sem consciência, essa tentativa falha e se converte em repetição do mesmo padrão.

O Papel do terapeuta

Na psicanálise, o objetivo não é simplesmente aconselhar Maria a “escolher melhor” seus parceiros. O trabalho analítico busca revelar os mecanismos inconscientes que a levam a repetir.

O tratamento ocorre em diferentes níveis. Inicialmente o terapeuta lançará mão da Associação Livre, onde Maria é incentivada a falar livremente sobre sua história, sem censura. Isso permite que memórias e afetos recalcados venham à tona. Como parte integrante da terapia, chegamos à Transferência, onde durante o processo poderão surgir sentimentos que Maria experimentou em relações anteriores, podendo se repetir na relação com o analista. Essa vivência é preciosa, pois possibilita compreender, no presente, os padrões inconscientes.

Além disto, a terapia psicanalítica também lançará mão do processo de Interpretação, onde o analista aponta conexões entre os relacionamentos atuais de Maria e suas experiências passadas, ajudando-a a enxergar o que antes estava oculto. Este ato
deve ser correspondido pelo analisando, ao vivenciar a sua Elaboração dos fatos, onde o paciente, ao invés de repetir cegamente, poderá elaborar o trauma, simbolizar sua dor e construir novas formas de se relacionar.

A psicanálise não promete eliminar automaticamente os sofrimentos, mas cria condições para que Maria se aproprie de sua história e encontre liberdade diante da compulsão.

Conclusão

O caso hipotético de Maria nos mostra que a repetição de relacionamentos abusivos não é fruto de fraqueza ou falta de inteligência, mas expressão de uma dinâmica inconsciente. A teoria freudiana da compulsão à repetição ajuda a compreender por que o sujeito revive, insistentemente, experiências dolorosas.

O tratamento psicanalítico oferece um espaço para transformar a repetição em elaboração, permitindo que a pessoa construa novas possibilidades de vida. Para Maria, esse caminho não significa apenas deixar de escolher parceiros abusivos, mas principalmente romper com a prisão inconsciente do passado e conquistar um futuro onde o afeto não esteja mais atrelado ao sofrimento.

Eu sou Jayr Santos e será um prazer manter contato com você, na certeza de que a psicanálise oferece ferramentas excelentes para o seu autoconhecimento e solução de questões psicológicas que lhe causem dor e sofrimento.

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