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QUANDO A FÉ SE TORNA INTOLERÂNCIA: um olhar psicanalítico

Por Jayr Santos

Introdução

Discriminação, preconceito, violência e intolerância. Essas são palavras propícias para descrever o ato de agressão, seja verbal, física ou psicológica, contra pessoas ou símbolos de uma determinada religião. A intolerância religiosa é um fenômeno social que se propaga em velocidade nas cidades do Brasil, o que gera preocupação. 

Segundo a Agência Brasil (1), de 2023 para 2024 testemunhamos um crescimento de 66,8% nas denúncias feitas no Disque 100, instrumento do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, do Governo Fedral. As religiões de matriz africanas, como Candomblé e Umbanda, são os grupos religiosos mais afetados, com ataques que se manifestam desde vandalismo, agressões físicas e assassinatos. Cidades como Rio de Janeiro e São Paulo são as mais denunciadas e as mulheres de tais religiões são as maiores vítimas.

Embora o tema da Intelerância Religiosa seja frequentemente abordada sob a perspectiva sociológica ou histórica, a Psicanálise também oferece uma compreensão profunda das raízes subjetivas desse comportamento. Ao analisar os mecanismos inconscientes que alimentam o ódio e a intolerância, podemos compreender melhor por que a religião, que poderia ser um espaço de acolhimento e sentido, às vezes se torna um motivo de conflito.

A Psicanálise e o fenômeno da intolerância

Freud (2), em obras como O Futuro de uma Ilusão (1927), observou que a religião surge como uma tentativa de lidar com a angústia e a incerteza humanas. No entanto, a mesma necessidade de segurança pode gerar projeções de medo e hostilidade contra aqueles que pensam de maneira diferente. Segundo a Psicanálise, a intolerância religiosa muitas vezes está ligada a mecanismos de defesa inconscientes, como a projeção: o indivíduo atribui aos outros sentimentos ou impulsos que não consegue reconhecer em si mesmo, transformando-os em inimigos externos.

Além disso, Jacques Lacan (3) apontou que o sujeito humano é estruturado em torno de falta e desejo. A religião pode funcionar como um modo de simbolizar essas faltas, oferecendo respostas claras e regras de pertencimento. Quando essas respostas são ameaçadas pela diferença do outro, o inconsciente pode gerar reações de hostilidade e intolerância, pois o indivíduo se sente inseguro diante do “real” que escapa ao seu controle.

Eis a razão de tal comportamento negativo ser observado em discursos religiosos que enfatizam muito mais as diferenças do que as semelhanças entre pensamentos religiosos. Não se defende o universalismo religioso, que considera a unificação de todas as religiões, o que é impossível, devido a enorme gama de manisfestações religiosas. Mas, enfatizasse aqui a possibilidade de dialogar de forma respeitosa e humanizada entre as diversas manifestações culturais e espirituais de tais religiões.

Mecanismos psíquicos na intolerância religiosa

A teoria freudiana aponta alguns mecanismos psíquicos, comuns em casos de intolerância. Entre eles destacamos a Projeção. Ela é reconhecida em sentimentos próprios de medo, raiva ou insegurança, neste caso atribuídos a membros de outras crenças. Também citamos o mecanismo da Idealização do grupo próprio. Neste mecanismo a fé de quem idealiza é entendida como perfeita e única, reforçando a exclusão do outro. Freud também nos ferramentaliza com o mecanismo da Negação e desvalorização. Neste caso, o outro é desqualificado ou desumanizado para justificar tal discriminação ou violência. Ilustra muito bem tal mecanismo de defesa, quando lembramos da igreja luterana alemã apoiando integralmente o regime nazista na mobilização da nação alemã, contra a população judaica, testemunhas de Jeová e os homoafetivos. O mesmo foi testemunhado pela Igreja Católica Romana justificando teologicamente a escravidão, bem como as igrejas protestantes no sul dos Estados Unidos fizeram para proteger seus campos agrículas.

Esses mecanismos, quando reforçados por contextos sociais e políticos, transformam a intolerância em ação concreta, desde comentários hostis até conflitos violentos.

Um discurso inverso

Quando a fé religiosa se transforma em escudo, ou ferramenta de ataque à outra expressão de fé, ela por si mesma descredencia seu discurso. No caso brasileiro, por muitas vezes tal intolerância acontece por parte de cristãos evangélicos para com candomblecistas e umbandistas. Tais episódios, na sua esmagadora maioria, ocorrem não por iniciativa oficial de denominações ou igrejas locais, mas sim por indivíduos ou grupos que não representam oficialmente suas instituições religiosas. Todavia, o risco está em que tais conceitos deturpados da fé sejam gerados e cultivados dentro do ambiente do discurso religioso.

O site UOL (4) relatou um episódio explícito de intolerância religiosa, ocorrido em julho de 2024, quando traficantes de origem e laços com a cultura evangélica, no Complexo de Israel, na zona norte da cidade carioca, vandalizaram, agrediram e expulsaram católicos, candomblecistas e umbandistas de suas comunidades. Não só agrediram como expulsaram praticantes e detredaram seus locais de culto.

O papel da Psicanálise na compreensão e prevenção

A Psicanálise não oferece soluções externas imediatas, como leis ou regras de conduta, mas permite que o sujeito reconheça seus próprios impulsos e medos. Ao trazer à consciência os conteúdos inconscientes que alimentam a intolerância, é possível reduzir reações automáticas de hostilidade.

Além disso, a Psicanálise reconhece a “função do grupo e da cultura” na formação da subjetividade. A convivência com diferentes crenças pode ser pensada como oportunidade de elaborar medos, construir empatia e desenvolver tolerância. Compreender o outro não significa abandonar a própria fé, mas interagir e integrar a diferença como parte da experiência humana.

Conclusão

A intolerância religiosa, embora complexa, não é apenas um problema social ou político. Ela tem raízes profundas na psique humana, ligadas a medos, projeções e necessidades inconscientes de segurança. A Psicanálise oferece ferramentas valiosas para compreender esses processos psíquicos e promover a reflexão sobre como a fé pode se transformar em fonte de acolhimento, e não de exclusão. Ao ampliar a consciência do indivíduo sobre seus impulsos e preconceitos, abre-se espaço para relações mais tolerantes e saudáveis, contribuindo para um convívio social mais harmonioso.

Referências bibliográficas

1. CALDAS. Ana Lúcia. Casos de intolerância religiosa sobem 67% em um ano. Rádio Agência, 2024. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2025-01/casos-de-intolerancia-religiosa-sobem-67-em-um-ano#:~:text=Um%20aumento%20de%20quase%2067,v%C3%ADtima%20de%20ataques%20e%20agress%C3%B5es.> Acesso: 20.09.2025

2. FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

3. LACAN, Jacques. O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

4. UOL. “Traficantes e ‘pastor’: a facção que exige conversão e práticas religiosas”.  Notícias UOL. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/07/26/entenda-o-complexo-de-israel-no-rio-de-janeiro.htm> Acesso em 26/07/2024.

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