Por Jayr Santos
Introdução
A resistência masculina à terapia é um fenômeno recorrente na clínica e em estudos contemporâneos sobre saúde mental. Assemelha-se a uma armadura medieval. Embora os homens apresentem sofrimento psíquico significativo, frequentemente expresso por ansiedade, irritabilidade, compulsões ou isolamento, a busca por ajuda terapêutica ainda é inferior à das mulheres.
Pesquisa de campo
Para entender melhor esse cenário masculino, realizei no meu próprio universo de contatos masculinos uma pesquisa de campo experimental, entre os dias 25 de março a 13 de abril de 2026, via WhatsApp, buscando entender melhor o fenômeno da resistência masculina à terapia.
Foram distribuídos 438 formulários destinados a homens entre: jovens, adultos e idosos, sendo que 126 pesquisas foram devolvidas. Desse total, formou-se o seguinte perfil do público estudado:
Cerca de 68,9% são homens adultos, seguidos de 24,6% de idosos e 6,6% de jovens. Quanto à escolaridade, 39,3% possuem ensino superior e outros 31,1% possuem pós-graduação. Quanto à religião, 98,3% são evangélicos. Dos entrevistados, 55,7% já fizeram algum tipo de terapia. Por isso, 96,7% concordam com a importância da terapia para a saúde mental.
Entre cinco motivos para os homens terem receio de terapia, meus entrevistados assinalaram três principais motivos: 75,4% indicaram a “falta de conhecimento”, outros 71,3 % apontaram “medo de expor sua intimidade”, seguidos da desculpa “não sou louco”, com 37,7%.
Já 60,7% manifestaram interesse em realizar terapia, sendo que 77% optaria por um terapeuta masculino e 23% escolheria uma mulher para ser sua terapeuta. Aqui vale a ressalva sinalizada por três entrevistados, que apontaram a falta de outra opção – a de aceitação para terapeuta homem ou mulher.
Dos 126 homens participantes do estudo, 64,8% escolheram terapia presencial e outros 35,2% optaram por terapia online.
.
A resistência como mecanismo psíquico
Tal como na pesquisa acima, a experiência psicanalítica mostra que a resistência é compreendida como um mecanismo de defesa inconsciente. Segundo Sigmund Freud, ela atua protegendo o ego do contato com conteúdos dolorosos (Recordar, Repetir e Elaborar, 1914). Assim, resistir não é simplesmente recusar ajuda, mas evitar o sofrimento psíquico. A pesquisa acima mostra isso.
No caso masculino, essa resistência se articula diretamente com a forma como a identidade é construída ao longo da vida.
Masculinidade e ideal de ego
Muitos homens são educados sob exigências de autocontrole, desempenho e invulnerabilidade. Frases como “homem não chora” moldam um ideal de ego rígido, no qual a fragilidade é vista como falha. De acordo com Donald Winnicott, a adaptação excessiva às expectativas externas pode levar ao desenvolvimento de um “falso self”, que é um esforço inconsciente de submissão às demandas externas, ocultando e protegendo o núcleo central da identidade da pessoa. Nesse processo, o indivíduo se afasta de sua experiência emocional autêntica, para atender a um papel de masculinidade distorcida por uma cultura.
Neste cenário, buscar terapia implica em reconhecer limites e entrar em contato com suas vulnerabilidades. Para muitos homens, isso entra em conflito com o ideal de autossuficiência, fazendo com que a terapia seja percebida, ainda que inconscientemente, como ameaça à sua falsa identidade de masculinidade.
Dificuldade de simbolização emocional
A saúde psíquica depende da capacidade de transformar emoções em palavras. No entanto, muitos homens não foram estimulados nesse processo. Isso é denunciado na pesquisa, quanto ao receio à terapia. A pesquisa mostra como justificativa para a resistência à terapia: a “falta de conhecimento”(75,4%), outros sinalizando o “medo de expor sua intimidade”(71,3%), seguidos da desculpa “não sou louco” (37,7%).
Segundo Wilfred Bion, essa transformação, chamada por ele de “função alfa”, é essencial para a elaboração emocional. Quando essa capacidade é limitada, surgem dificuldades em nomear sentimentos, gerando confusão emocional e tendência à ação impulsiva, configurando um quadro próximo ao analfabetismo emocional. Este quadro de dificuldade em nomear seus sentimentos, na teoria de Bion, é descrito como carência no processo mental, que bloqueia transmissões sensoriais brutas, dificultando pensamentos, memórias e sonhos.
Diante dessas dificuldades, o psiquismo recorre a defesas como negação, racionalização e atuação. Na prática, isso se manifesta em excesso de trabalho, em irritabilidade constante, em
isolamento afetivo e comportamentos de risco. Como a terapia exige reflexão e elaboração, ela tende a ser evitada.
Dificuldades no vínculo e resistência
Outro aspecto a considerar é que o processo terapêutico exige confiança, abertura e capacidade de vínculo. No entanto, muitos homens foram treinados basicamente para competir, e pouquíssimo para se vincular emocionalmente, o que pode gerar desconforto com a exposição e dificuldade em sustentar o processo.
Acrescenta-se à dificuldade de vínculo a resistência. Ela não deve ser vista apenas como um obstáculo, mas como indicador clínico. A resistência revela onde estão os principais conflitos e aponta áreas que necessitam de elaboração. Por isso, no processo terapeutico o objetivo não é eliminar a resistência, mas compreendê-la e trabalhá-la.
Por isso, superar a resistência exige redefinir o conceito de força. Força não é ausência de dor, mas capacidade de reconhecer limites, elaborar conflitos e se abrir à transformação. Desta forma, quando o homem busca por terapia, ele expressa maturidade emocional e responsabilidade pessoal.
Caminhos de superação
A superação da resistência ocorre de forma gradual, por meio do desenvolvimento da linguagem emocional, através das experiências seguras de escuta, da construção de confiança e do contato progressivo com a subjetividade. E a clínica psicanalítica oferece um espaço adequado para esse processo.
Conclusão
A resistência masculina à terapia não é incapacidade, mas expressão de um modelo de masculinidade baseado na negação da vulnerabilidade. Ao enfrentar o seu inconsciente, o homem não perde sua identidade, ele a aprofunda.
Por isso, o desafio: Escute a sua mente. Reescreva a sua história!
Referências Bibliográficas
BION, Wilfred.R. Aprender com a experiência. São Paulo: Editora Blucher, 2020.
FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: Obras completas, volume 10: O inconsciente, inibição, sintoma e angústia e outros textos (1913-1914). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
WINNICOTT, D.W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Tradução de Irineo Constantino S. Ortiz. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983