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DO PÚLPITO AO DIVÃ: A descrição de uma sessão psicanalítica de um pastor sobrecarregado

Por Jayr Santos

É o início da sessão. Wilber, o pastor, chega quase em cima da hora, com postura tensa e olhar inquieto. Ao sentar-se, respira fundo e inicia o relato: “Estou cansado, sem ar… Sinto que, se eu não tomar a iniciativa das coisas, tudo desanda. A igreja, os cultos, as pessoas… até minha casa parece depender de mim.” Sua voz mistura exaustão e orgulho, como se confessasse algo que ao mesmo tempo o fizesse sofrer, tanto quanto o define.

Marcos Salomão, o terapeuta, mantém o silêncio por alguns instantes, permitindo que o discurso se desdobre. Wilber continua: “Eu oro, planejo, oriento, corrijo, visito, prego… mas no fundo, parece que nada é suficiente. Quando algo sai diferente do que imagino, sinto raiva, e depois me culpo por sentir no coração esse sentimento ruim. Aí me puno mais ainda.”

Nesta hora Marcos Salomão intervém com uma pergunta leve, mas precisa: “E o que aconteceria se você não estivesse no controle?”

O pastor hesita. A pergunta o desorganiza por dentro. Após uma pausa, olhando para o chão, responde com voz mais baixa e pausada: “Acho que tudo desmoronaria… Talvez eu mesmo me desestruturaria.”

A sessão avança com desabafos e entrega de sentimentos, por parte de Wilber, e com intervenções de Marcos Salomão, aqui ou ali, fazendo Wilber discernir o que grita seu inconsciente.

Nesse ponto, a sessão ganha um clima de reflexão silenciosa. Acontece uma curta pausa… O psicanalista percebe que o controle, para aquele pastor, funciona como uma defesa do seu inconsciente contra um sentimento profundo de desamparo. Sentimento que Wilber ainda não entende ou consegue discernir por completo, mas percebe ser real. Na verdade, algo que ele tenta negar através da “onipotência” do fazer pastoral. Sua fé, embora genuína, parece ter se fundido ao ideal do “pastor perfeito”, sustentando uma imagem de força que encobre a sua fragilidade humana.

Ao final da sessão, o pastor se mostra mais calmo. Ele reconhece, com um meio sorriso: “Talvez eu esteja tentando ser um pequeno ‘deus’ no lugar de Deus.” O analista devolve, sem julgamento: “E talvez seja justamente aí que começa o seu encontro com o Wilber humano, o que sofre, o que não controla, o que apenas é.”

A sessão termina com uma nova pausa… Marcos Salomão ajuda Wilber a crescer na compreensão de que não haverá soluções prontas, mas um deslocamento interno, que representa o início da aceitação de que o controle absoluto é uma ilusão que o aprisiona. E que a verdadeira liberdade pode estar em se permitir desobrigar da responsabilidade de dominar tudo.

Uma semana depois…

No encontro seguinte Wilber retorna com o mesmo discurso de cansaço e frustração. Conta que, durante a semana, tentou “deixar algumas coisas nas mãos dos líderes”, mas acabou intervindo novamente “para garantir que tudo ficasse certo”. Relata sentir culpa por não confiar nas pessoas, e, ao mesmo tempo, ressentimento por se sentir sozinho nas responsabilidades eclesiásticas.

O analista observa um padrão de repetição: a compulsão em controlar o ambiente e as pessoas surge como uma tentativa inconsciente de evitar o contato com sentimentos de impotência e vulnerabilidade. Aos poucos, o discurso do pastor revela o medo de ser criticado ou de falhar — um eco de experiências antigas, possivelmente de uma infância marcada por exigência, onde amor e aprovação eram condicionados ao bom desempenho.

Durante a sessão, o psicanalista comenta: “Parece que você se cobra ser infalível, como se não pudesse errar ou decepcionar. Há algo de muito pesado nesse papel.”

Wilber pensa por alguns segundos e responde: “Na verdade, é isso mesmo! Sempre me disseram que o pastor é o exemplo. Mas às vezes me sinto um impostor, porque dentro de mim há uma bagunça que não posso mostrar a ninguém… Sabe de uma coisa? Isso está me fazendo lembrar de questões da minha infância, com meus 8 anos, quando eu, como filho do meio, disputava com meus dois irmãos o amor de meu pai. Como eu não era o filho mais velho, com seus privilégios, nem o filho mais novo, com suas regalias, sobrava a mim a tarefa de superá-los para merecer sentir-me filho também.”

Diante dessa fala, Marcos Salomão vai discernir que Wilber expõe o conflito entre o ideal do eu e o eu real, ou seja, entre o “pastor modelo” que ele tenta sustentar e o sujeito humano que sente, erra e deseja. O superego, estruturado a partir de mandatos religiosos e atitudes morais rígidas, funciona como instância punitiva: cobra perfeição, acusa, castiga, não permite descanso. Essa rigidez gera angústia e sintomas de exaustão.

Do ponto de vista teórico, o desejo de controlar tudo pode ser compreendido como expressão de uma formação reativa e de uma onipotência do ego. O pastor defende-se contra o medo do desamparo e da castração simbólica, isto é, contra a percepção de que há limites, de que ele não pode tudo. Assim, o controle surge como defesa narcísica: uma tentativa de sustentar a ilusão de autossuficiência.

Há também elementos de racionalização, pois ele justifica sua necessidade de controle em nome da “responsabilidade espiritual” ou do “bem da igreja”, quando na verdade está em jogo um conflito interno com sua própria fragilidade e dependência. A fé, nesse contexto, é vivida mais como dever do que como experiência de entrega genuína a Deus.

O trabalho analítico se orienta, então, para ajudá-lo a reconhecer e simbolizar o desamparo, isto é, aceitar a própria limitação, sem vivê-la como fracasso moral. À medida que Wilber começa a diferenciar o “ser pastor” do “ser sujeito”, o controle deixa de ser necessidade compulsiva e passa a ser uma escolha consciente, situada na realidade e não no ideal.

Em síntese, a análise revela um homem aprisionado entre o chamado espiritual e o imperativo narcísico de ser perfeito. O espaço analítico, ao acolher seu sofrimento sem julgamento, oferece-lhe a possibilidade de experimentar algo que a função pastoral raramente permite: a vulnerabilidade sem perda de valor. É nesse espaço que o eu começa a se reestruturar, menos rígido, mais humano e, paradoxalmente, mais próximo do sagrado que ele tanto busca servir.

Neste percurso para dentro de si, Wilber e Marcos Salomão personificam um dilema tremendamente cotidiano a pastores e líderes que, perseguindo e sendo perseguidos por vozes ocultas do inconsciente, martirizam a si e a outros ao seu redor.

Que sejamos conscientes e honestos conosco mesmos, para que além de Bíblia, jejum e oração, busquemos também ajuda profissional, atravessando do púlpito ao divã.

3 comentários em “DO PÚLPITO AO DIVÃ: A descrição de uma sessão psicanalítica de um pastor sobrecarregado”

  1. Um relato preciso que reflete a realidade do ministério pastoral de muitos companheiros de ministério. Um pastor que esconde suas fragilidades internas no ativismo externo, cedo ou tarde vai adoecer e tornar doentes os que estão mais próximo.

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