Por Jayr Santos
Nos últimos anos, as apostas esportivas online, popularmente chamadas de “bets”, cresceram rapidamente no Brasil. Só em 2025 foram 37 bilhões de reais em jogos (1) .
Impulsionados pela publicidade intensa, pela facilidade de acesso através do celular nas mãos e pela promessa de ganhos rápidos, milhões de brasileiros passaram a utilizar plataformas de apostas diariamente. Entretanto, junto ao crescimento do setor, aumentaram também os casos de compulsão, além de endividamento, ansiedade e sofrimento emocional.
Dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (2) apontam que 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas no primeiro semestre de 2025. No mesmo período, as empresas do setor faturaram bilhões de reais. Por essa razão, o Governo Federal reconhece que o problema alcançou dimensão de saúde pública. Os próprios levantamentos oficiais indicam que uma parcela significativa dos apostadores apresenta sinais de risco para dependência em jogos, especialmente entre jovens e adolescentes.
Na perspectiva psicanalítica, o vício em bets, ainda que passe pelo viés da necessidade de disciplina e autocontrole, a compulsão em si, geralmente está ligada a conflitos emocionais profundos, angústias internas e tentativas inconscientes de aliviar sofrimentos psíquicos.
Sigmund Freud, fundador da psicanálise, afirmou que muitos comportamentos repetitivos estão associados à chamada “compulsão à repetição”(3). O sujeito retorna constantemente a determinadas práticas porque existe algo emocional ainda não elaborado dentro dele. Funciona como um retorno inconsciente buscando reeditar um dano psíquico, mas, como tal vivência não está elaborada, o retorno impulsiona à repetição do erro.
No caso das apostas online, o jogo frequentemente funciona como uma forma de escape emocional. A expectativa da vitória, a adrenalina do risco e a possibilidade de ganho imediato, produzem prazer momentâneo e aliviam, ainda que temporariamente, sentimentos de vazio, ansiedade, frustração e impotência.
Muitas vezes, o indivíduo não busca apenas dinheiro. Busca a sensação de poder, reconhecimento, excitação emocional ou fuga da realidade dolorosa. A sociedade atual também favorece esse cenário ao estimular prazer imediato, rapidez e dificuldade de lidar com frustrações.
Outro aspecto importante é a ilusão de controle. Muitos apostadores acreditam possuir estratégias infalíveis ou “sorte especial”, o que alimenta a repetição das apostas mesmo diante de perdas sucessivas. Com o agravamento do vício, surgem consequências emocionais importantes: culpa, vergonha, isolamento social, conflitos familiares e sofrimento psicológico intenso. Mesmo percebendo os prejuízos, muitos jogadores não conseguem parar.
A psicanálise entende que, em alguns casos, o comportamento compulsivo também pode carregar um aspecto autodestrutivo. Pessoas marcadas por sentimentos de fracasso, baixa autoestima ou rejeição podem utilizar o jogo como forma inconsciente de punição contra si mesmas.
Por isso, o tratamento psicanalítico não se limita a interromper o comportamento compulsivo. Seu objetivo é compreender o significado emocional que sustenta o vício. Na clínica, o paciente é levado a refletir sobre sua história, seus afetos, suas dores e os conflitos inconscientes ligados à compulsão.
O Governo Federal vem ampliando ações de enfrentamento ao problema, criando medidas de prevenção e apoio para pessoas com dependência em apostas eletrônicas(4). A Plataforma Centralizada de Autoexclusão, uma das principais entregas da Secretaria em 2025, recebeu mais de 217 mil pedidos de auto bloqueio.
Isso demonstra que a ludopatia, que é a dependência patológica nos jogos de azar, já não pode ser vista apenas como questão moral ou financeira, mas como um problema de saúde mental.
Assim, a psicanálise contribui ao lembrar que, por trás da compulsão, existe um sujeito em sofrimento. Mais do que condenar o comportamento, torna-se necessário compreender as dores emocionais que levam tantas pessoas a buscar nas apostas uma tentativa de aliviar sua própria angústia.
Referências bibliográficas:
1. FERRAZ, Carolina. “Bets movimentam R$ 37 bilhões no Brasil e passam a disputar o orçamento das famílias”. Veja Negócios. 23.04.26. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/economia/bets-movimentam-r-37-bilhoes-no-brasil-e-passam-a-disputar-o-orcamento-das-familias/> Acesso em: 18.05.26.
2. Ministério da Fazenda. “No primeiro semestre, 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas de quota fixa e ultrapassou-se o total de 15 mil sites ilegais bloqueados”. Gov.br. Agosto/2025. Disponível em:<https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2025/agosto/no-primeiro-semestre-17-7-milhoes-de-brasileiros-realizaram-apostas-de-quota-fixa-e-ultrapassou-se-o-total-de-15-mil-sites-ilegais-bloqueados?utm_source=chatgpt.com.> Acesso em 18.05.26
3. FREUD, Sigmund. “Recordar, repetir, elaborar.” In: Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1914/1996. v. 12, p.163.
4. Ministério da Fazenda. “Em um ano de mercado regulado SP registra mais de 25 mil sites ilegais bloqueados”. Gov.br. Disponível em: <https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2026/janeiro/em-um-ano-de-mercado-regulado-spa-registra-mais-de-25-mil-sites-ilegais-bloqueados?utm_source=> Acesso em: 18.05.26