Por Jayr Santos
Introdução
O termo masculinidade tóxica tornou-se recorrente no debate contemporâneo. Muitas vezes usado de modo genérico ou acusatório, ele costuma provocar reações defensivas, sobretudo em contextos mais conservadores. Ainda assim, o conceito aponta para uma realidade concreta: certos modos de viver a masculinidade produzem sofrimento psíquico, fragilizam os vínculos e favorecem a violência. Em alguns casos extremos, ultrapassam os limites de civilização.
Uma das manifestações mais claras da masculinidade tóxica é o fenômeno do feminicídio, recorrendo ao longo da história da humanidade, porém com notoriedade nos últimos anos. Camila Boehm (1), da Agência Brasil, cita que o País atingiu recorde desta modalidade de crime em 2025, totalizando quatro mortes por dia. Na soma total, o Brasil registrou 1.518 mulheres, vítimas só no ano passado.
Diante deste quadro a psicanálise contribui deslocando essa discussão do campo moral para o campo do inconsciente. Mais do que julgar comportamentos, a escuta analítica busca compreender por que determinados padrões se repetem e que conflitos psíquicos sustentam tais formas de agir.
A masculinidade à luz do inconsciente
Em ambientes religiosos, o tema frequentemente é percebido como uma ameaça à figura masculina ou aos valores tradicionais. Este artigo propõe uma abordagem dialogal, na qual fé e psicanálise não se excluem. Pelo contrário, quando preservados seus lugares próprios, podem se tornar espaços simbólicos de elaboração do sofrimento humano, sem reduzir a clínica a aconselhamento moral, nem a fé a um discurso culpabilizante.
A masculinidade não deve ser confundida com sexo biológico, nem com um conjunto fixo de atributos comportamentais. Trata-se de uma construção psíquica, marcada por identificações, perdas, conflitos e ideais inconscientes. Desde Freud, compreende-se que a identidade masculina se organiza a partir do complexo de Édipo, da relação com as figuras parentais.
Ser homem, nesse sentido, implica confrontar-se com a falta, com a castração simbólica e com os limites impostos ao desejo. Quando esse processo não é suficientemente elaborado, o sujeito tende a recorrer a soluções defensivas, tais como: busca excessiva por poder, controle, afirmação de força ou negação da própria vulnerabilidade. Muitas vezes essas respostas não são escolhas conscientes, mas tentativas psíquicas de defesa diante da angústia.
Por isso, não se pode falar de uma masculinidade simplesmente, ou isoladamente tóxica. O que existe são formas defensivas de sustentar o Eu masculino que, ao se cristalizarem, passam a gerar sintomas e sofrimento, manifestos em comportamentos aqui identificados como atitudes nocivas para os relacionamentos. Isso busca entender a dinâmica psíquica de um agressor, mas nunca justificar um ato de intolerância e supremacia sobre o outro.
Masculinidade tóxica como defesa emocional
No estudo da psiquê humana a masculinidade tóxica pode ser entendida como uma forma de defesa contra sentimentos que muitos homens aprenderam a considerar perigosos ou inaceitáveis, como medo, tristeza, vergonha, sensação de fraqueza ou dependência de outros. Em geral, esses sentimentos foram reprimidos desde cedo, seja por causa de pais autoritários, ausentes ou violentos, seja por uma cultura que ensina que o homem precisa ser rígido, forte e não demonstrar emoções.
Quando a dor não encontra espaço para ser reconhecida e expressa em palavras, ela acaba se revelando em atitudes. A agressividade, a necessidade de controlar tudo, a dificuldade de ouvir o outro e o desprezo pelas pessoas ao redor, surgem como tentativas de esconder a própria fragilidade. Nesse sentido, a violência não é sinal de força, mas um indicativo de que há sofrimento emocional não elaborado.
Assim, a masculinidade tóxica não indica excesso de virilidade, mas uma masculinidade ferida, sustentada por defesas narcísicas rígidas que impedem a construção de vínculos mais vivos e responsáveis.
Superego, ideal masculino e culpa
Outro elemento central nessa dinâmica é o Superego (2). Muitos homens vivem sob a pressão de um Superego severo, que exige desempenho, sucesso, potência sexual, autoridade e invulnerabilidade. Esse ideal masculino, frequentemente transmitido de forma transgeracional, de pai para filho, produz sentimentos constantes de culpa e inadequação.
Diante da impossibilidade de corresponder plenamente a esse ideal, o sujeito pode oscilar entre a submissão silenciosa e a explosão agressiva. Em ambos os extremos, o sofrimento psíquico é intenso. A masculinidade tóxica surge, então, como uma tentativa de satisfazer esse Superego implacável, mesmo que isso comprometa a saúde emocional e os laços afetivos.
A psicoterapia analítica possibilita questionar esse ideal, revelando que ele não é natural, nem divino, mas historicamente construído e sustentado por fantasias inconscientes.
Diálogo com a fé: lei, amor e simbolização
O diálogo com a fé, seja ela de que matriz for, pode enriquecer essa reflexão, desde que o discurso da fé não simplifique a complexidade do fenômeno. Em sua essência, as religiões de abrangência mundial, seja ela cristã, judaica, muçulmana, budista e animista, não legitimam a violência. Pelo contrário, propõem uma ética fundada no amor, na responsabilidade e no reconhecimento do outro.
Assim, a essência da fé não corresponde a um ideal de masculinidade rígida e invulnerável. Pelo contrário, apresenta um homem que precisa ser capaz de chorar, sentir compaixão, reconhecer limites e submeter-se à lei, sem recorrer à violência. Essa nova imagem oferecida pela fé, pode favorecer a uma reelaboração psíquica, em vez de reforçar exigências superegoicas, que são formadas por: cobranças, ordens, proibições e ideais impostos por nosso Superego, que constituem a nossa consciência moral.
No entanto, quando a fé é capturada por discursos moralistas, ela pode intensificar a culpa e fortalecer ideais masculinos inalcançáveis. Nesses casos, a escuta psicanalítica torna-se fundamental para diferenciar a experiência espiritual do peso superegóico que paralisa o sujeito.
Clínica, transformação e responsabilização
O olhar através da psiquê humana não tem como objetivo destruir a masculinidade. Muito pelo contrário! Ela deseja potencializar uma masculinidade saudável, tornando-a mais relacional. Na clínica com homens, o trabalho frequentemente consiste em deslocar o sujeito do ato para a palavra, da repetição para a simbolização. Narrando livremente a sua história, o indivíduo pode reconhecer as marcas deixadas por modelos masculinos adoecidos e, assim, interromper a transmissão da violência.
Responsabilizar-se, nesse contexto, vai além de assumir uma culpa moral, mas reconhecer a própria história e seus efeitos sobre si e sobre os outros. Quando vivida de modo maduro, a fé pode funcionar como suporte simbólico nesse processo, sem silenciar o conflito, enxergando a angústia daquele que fere, em nome de uma masculinidade adoecida, ainda que tal manejo clínico não desconsidere, nem oculte a pessoa ferida, seus direitos defendidos pela sociedade, e a necessidade de reparação.
Conclusão
À luz da psicanálise, a masculinidade tóxica é o mascarar de um sofrimento psíquico. Por essa razão ela demanda escuta, elaboração e responsabilização. Exige escuta do terapeuta e implicação por parte do homem, com tal masculinidade nociva, além da responsabilização de seus atos perante a sociedade.
O diálogo com a fé torna-se possível e fecundo quando se respeita o lugar do inconsciente e se evita o moralismo. Nesse encontro, o homem pode descobrir que tornar-se masculino não passa pela negação da fragilidade, mas pela capacidade de simbolizá-la, transformando a dor em palavra e a violência em responsabilidade para com o outro, gerando a possibilidade de vínculo.
Por mais indivíduos desintoxicados!
Escute sua mente. Reescreva sua história.
NOTAS DE RODAPÉ
1. BOEHM, Camila. “Brasil atinge recorde de feminicídios em 2025: quatro mortes por dia”. São Paulo: Agência Brasil. 05.02.2026. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-02/brasil-atinge-recorde-de-feminicidios-em-2025-quatro-mortes-por-dia#:~:text=O%20Brasil%20atingiu%20n%C3%BAmero%20recorde,viol%C3%AAncia%20dom%C3%A9stica%20e%20de%20discrimina%C3%A7%C3%A3o.> Acesso em: 06.02.26
1. BOEHM, Camila. “Brasil atinge recorde de feminicídios em 2025: quatro mortes por dia”. São Paulo: Agência Brasil. 05.02.2026. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-02/brasil-atinge-recorde-de-feminicidios-em-2025-quatro-mortes-por-dia#:~:text=O%20Brasil%20atingiu%20n%C3%BAmero%20recorde,viol%C3%AAncia%20dom%C3%A9stica%20e%20de%20discrimina%C3%A7%C3%A3o.> Acesso em: 06.02.26
2.Lembrando a proposta freudiana para a elaboração da psiquê do ser humano, chamado também de 2a tópica (1923), o aparelho psíquico era formado por três instâncias, chamadas de ld, Ego e Superego. Nesta proposta o Ego atua como mediador entre os desejos pulsionais do Id e as regras morais do Superego.