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QUANDO O CORPO FALA O INDIZÍVEL: o pânico e a psicanálise

Por Jayr Santos

Intodução

Quem visitar as produções cinematográficas dos últimos anos da década de 90 e início dos anos 2000 poderá facilmente identificar o  impacto causado pela trilogia “Pânico”, da categoria de filmes de suspense e terror, produzida pela Paramount Pictures. Com sua série de sete filmes, a trilogia contou a história de personagens como: Ghostface, Stab, Billy e Sidney Prescott. Apesar da máscara branca, caracterizada pelos traços disformes, impregnando medo e pavor, a série Pânico explora o tema deste transtorno psíquico de forma caricata, acentuando o aspecto do pavor e do medo. Porém, fora das telas do cinema, o transtorno do pânico é mais real e comum do que se pensa.

Uma doença presente entre nós

“Eu tive a minha primeira crise de síndrome do pânico lá pelos 20, 21 anos. Eu estava num restaurante com as minhas amigas e comecei a sentir um mal estar muito grande, falta de ar, taquicardia. Foi do nada. Quer dizer, hoje eu sei que não é do nada, mas na época eu não sabia de onde vinha aquele “terremoto”. Eu tive certeza que eu estava morrendo e pedi para me levarem para o hospital. 

Fiz milhões de exames, mas todos deram resultados normais, graças a Deus. E quando eu recebi o diagnóstico de síndrome do pânico, eu não levei a sério. Os médicos juravam que eu não tinha nada físico. Mas eu não acreditava que aquela sensação tão real pudesse ser uma construção da minha mente. Eu continuava achando que eu tinha alguma coisa no cérebro, um tumor ou alguma doença séria que iria me matar. (…) Hoje identifico que a minha síndrome do pânico vem do medo da morte. 

Este é o relato feito pela cantora Wanessa Camargo (1) descrevendo sua primeira crise causada pelo transtorno do Pânico, no início da década de 2020. E diferente do que possa parecer, o transtorno de Pânico é mais presente do que parece.

Márcia Piovesan (2) cita que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) cerca de 280 milhões de pessoas no mundo têm transtorno do pânico. Já, de acordo com a Pfizer Brasil (3), o número de pessoas que sofrem com esse transtorno mental chega a 6 milhões de pessoas no país. Os números são alarmantes. E tal quadro é agravado pelo fato dele ser caracterizado por sentimentos de medo e  ansiedade extremos, acompanhados de taquicardia, mal-estar e outros problemas físicos, que aparecem sem um motivo aparente. Piovesan chega a afirmar que: “Por ter sinais e sintomas parecidos com outras doenças, muitas vezes o transtorno do pânico só é diagnosticado após o paciente passar por consultas com diferentes especialistas e realizar vários exames”, geralmente sem detectar uma anomalia fisiológica específica.

Descrição psiquiátrica da doença do pânico

Ligado aos transtornos da ansiedade, o transtorno do pânico é caracterizado por sua aparente repentina chegada, causando um rápido, mas profundo estrago no paciente. A crise pode ter duração de 15 a 30 minutos. Geralmente ela é seguida por agorafobia, que é um intenso medo de estar exposto a lugar ou situação que possa provocar contextos de insegurança ou fragilidade diante de outras pessoas. Geralmente, entre as situações que mais causam desconforto são: estar em local com multidão, locais fechados, estar na direção de veículo, espera em filas longas, como ainda estar fora de casa desacompanhado, entre outros.

O site Biblioteca Virtual de Saúde (4), do Ministério da Saúde, compartilha sobre a etiologia dessa doença, ao afirmar que “a região central do cérebro é responsável pelo controle das emoções e da liberação de adrenalina – hormônio que faz com que o organismo se prepare para fugir ou lutar diante de um perigo. No transtorno do pânico, esse “alarme” cerebral dispara sem que haja um perigo real, provocando a sensação de medo e mal-estar intenso.”

O transtorno de Pânico tem os seguintes sintomas: aceleração dos batimentos cardíacos e da respiração; falta de ar; pressão ou dor no peito; palidez; suor frio; tontura; náusea; pernas bambas; formigamento; tremores; calafrios ou ondas de calor;  sensação de estar “fora do corpo”; medo de morrer ou de “perder o controle”; além de desmaio ou vômito no pico da crise.

Como a psicanálise trata o Pânico

Tal como na psiquiatria, a psicanálise entende que o transtorno do Pânico faz parte das doenças ligadas a ansiedade. Sendo ela uma experiência emocional desconfortável, a ansiedade tem como função promover o alerta ao EGO da chegada de algo perigooso, seja de conteúdo concreto ou emocional, venha de fora ou dentro do indivíduo.

Quando tal perigo se aproxima, a ansiedade sinaliza ao EGO do indivíduo que algo de ameaçador se aproxima. Pode ser um pensamento, um desejo conflitante, uma memória traumática que crie associação com algum episódio passado, entre outros. Uma vez avisado, o EGO aciona determinados mecanismos de defesa para proteger o sistema psíquico do indivíduo.

No caso de um EGO desestruturado e enfraquecido, na hipótese de não vir a notar tais sinalizações promovidas pela angústia, ele será como um sistema desativado, não acionando os mecanismos de defesas, gerando a crise do transtorno do Pânico. Outra hipótese é a angústia ter sinalizado ao EGO a chegada de tais elementos perturbadores, ele ter acionado seus mecanismos de defesa, mas estes não terem sido suficientes para conter tal grau de ansiedade, ocasionando toda crise.

Conclusão

O transtorno de pânico pode ser tratado! O processo começa buscando ajuda psiquiátrica para elaboração de diagnóstico, seguido por ministração de antidepressivos, ansiolíticos e tricíclicos. Concomitante, o acompanhamento psicoterapêutico deve ser desenvolvido. Na psicanálise o analisando será ajudado pelo analista a encontrar-se com as origens de tais angústias, bem como se estruturar para lidar com tais angústias, possibilitando o fortalecimento psíquico e bem estar do indivíduo.

Referências bibliográficas:

1. SANTANA, Claudia Feitosa. Wanessa em: Com a síndrome do pânico, eu me tornei dona da minha história. Podcast Plenae, histórias para refletir. 04.09.2022. Disponível em” <https://plenae.com/para-inspirar/wanessa-em-com-a-sindrome-do-panico-eu-me-tornei-dona-da-minha-historia/#:~:text=Wanessa%3A%20Eu%20tive%20a%20minha,de%20onde%20vinha%20aquele%20terremoto.> Acesso em: 12.12.2024

2. PIOVESAN, Márcia. Organização Mundial da Saúde (OMS) cerca de 280 milhões de pessoas no mundo têm transtorno do pânico. Terra/saúde. 11.10.2024. Disponível em:

<https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/saude/organizacao-mundial-da-saude-oms-estima-que-280-milhoes-de-pessoas-no-mundo-tem-transtorno-do-panico,8465a0646632a2057ead4ddd23949749rbmznggq.html?utm_source=clipboard> acesso em 12.12.2024

3. Pfizer. Quando o pânico vira doença. 06/02/2020. Disponível em: <https://www.pfizer.com.br/noticias/ultimas-noticias/quando-o-panico-vira-doenca#:~:text=A%20s%C3%ADndrome%20do%20p%C3%A2nico%20j%C3%A1,qual%20deve%20ser%20seu%20tratamento.> Acesso em: 12.12.2024

4.  Biblioteca Virtual de Saúde.  Síndrome de Pânico. Ministério da Saúde. Julho de 2019. Disponível em: <https://bvsms.saude.gov.br/transtorno-do-panico/#:~:text=O%20transtorno%20do%20p%C3%A2nico%20(TP,de%2015%20a%2030%20minutos.> Acesso em 12.12.2024

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