Introdução
O termo Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) pode parecer específico demais, ou até mesmo estranho, mas este fenômeno em nossa sociedade é mais comum do que se imagina. Visto por especialistas da saúde mental como uma doença que afeta milhares de pessoas, o TDC é uma doença psíquica que afeta a autoimagem do indivíduo, sinalizando uma rejeição de parte de seu corpo, o que desencadeia ideias obsessivas de que algo defeituoso ou dismórfico em sua aparência está visível aos outros, e que tal aspecto corporal precisa ser escondido ou corrigido.
Esta percepção de seu corpo é tão acentuada que a única maneira de aliviar tal tensão é executando determinados ritos compulsivos, em busca de um alívio, mesmo que passageiro, até sentir-se novamente angustiado por tais pensamentos, o que o arremessará novamente para a repetição de tais ritos.
O sofrimento da sociedade atual
Marcelo está concorrendo a uma vaga de emprego em uma empresa de publicidade dos seus “sonhos”. Depois de um longo percurso classificatório, Marcelo é chamado para uma etapa final, daqui há uma semana. Nesta atividade ele precisará falar sobre determinado tema de seu domínio. Ele está apreensivo, temeroso, mas, se esforçando para manter o otimismo. Até saber que esta atividade final será realizada diante de uma banca de profissionais da agência, que ele sabe ser composta na sua maioria por mulheres. Inclusive, a banca será liderada por sua futura supervisora, a senhora Augusta, nome de sua mãe adotiva.
Marcelo “congela”, pois, sem ter plena compreensão de seus pensamentos, associa a sra. Augusta, com sua mãe adotiva, que possuía o mesmo nome. Sem o domínio de suas emoções, ele agora revive lembranças sofridas em sua infância, quando sua progenitora também era sua algoz, afirmando ser ele um menino desengonçado, magrelo e feio. Isto gerou em Marcelo, ao longo de sua vida, uma busca inalcançável por um rosto e corpo apresentáveis, que lhe permitisse ser aceito pelos outros. E nesta busca incessante por aceitação, Marcelo já havia feito duas cirurgias plásticas no rosto, além de ser frequentador assíduo de academias.
Aquela foi uma semana torturante para Marcelo, onde ele buscou desesperadamente por tratamentos faciais e corporais, até que no dia marcado ele optou em cancelar seu compromisso com a empresa, perdendo assim a vaga tão sonhada.
Essa não é a vivência apenas do Marcelo. Sim, pois, segundo o dr. Walter Matsumoto, no ano de 2023 o Brasil viveu o marco histórico no cenário mundial das cirurgias plásticas, com o recorde de 2 milhões de pessoas submetidas a procedimentos estéticos no país, conforme dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). É lógico que não podemos afirmar que a totalidade das pessoas citadas nesta estatística buscaram cirurgias plásticas por um Transtorno Dismórfico Corporal. Todavia, existe toda probabilidade de ser alto o número de pessoas com uma insatisfação contínua em relação ao seu corpo, tudo com fundo emocional.
Entre esses 2 milhões de brasileiros que buscaram a cirurgia plástica, quais foram as intervenções mais realizadas no Brasil? A dra. Adriana Lembri desvenda que as mais realizadas incluem: a lipoaspiração, a mamoplastia de aumento, a abdominoplastia, a rinoplastia e a prótese de silicone nos glúteos. Enquanto que, no cenário mundial as cirurgias de mamoplastia de aumento e a lipoaspiração foram as cirurgias mais realizadas.
Esse quadro de 2 milhões de brasileiros em uma busca cada vez maior por cirurgias plásticas, sinaliza uma insatisfação que vai além da estética, e que encontra raízes no emocional das pessoas. O TDC é exatamente isto. Ele vem armado de pensamentos delirantes e incontroláveis de que há algo de errado com determinada área de seu corpo. Mesmo que haja argumentos plausíveis trazidos por pessoas amigas, provas referenciadas no registro de peso, na diminuição ou aumento no tamanho do manequim, fotos de antes e depois, em fim… Mesmo diante de tudo isso, a pessoa que possui o TDC permanecerá dominada por pensamentos delirantes, que exercem sobre ela um domínio que a induz a comportamentos e rituais, na busca de amenizar sua angústia.
As redes sociais e sua influência no TDC
Elas vieram para ficar! Sim, as redes sociais dialogam muito bem com essa geração conectada 24 horas por dia. E com elas, a sociedade vai absorvendo, como também produzindo hábitos novos. Alguns saudáveis, outros não. Exemplo disso são as fotos e selfies tiradas para as famosas postagens em redes sociais.
Habitualmente não basta uma foto. Precisam ser várias, ou dezenas delas, para que depois possa ser escolhida a que melhor represente a pessoa em objeto. Após isso tudo, seguem-se as edições, cortes, acréscimos de filtros, colagens, entre outros, até que finalmente possa ser feita a postagem. Tudo em busca de curtidas, comentários e compartilhamentos. Este esforço em manipular a própria imagem em busca de aceitação, de certa forma, representa um esforço em dar uma nova forma ao que não está bom o suficiente. Assim, nestes casos publicamos uma mentira a nosso próprio respeito. Uma imagem manipulada. O problema é que baseando nossas relações em mentiras ditas por nós mesmos, agravamos um dos grandes problemas interpessoais de nossos dias – o medo da rejeição!
O TDC na compreensão da psicanálise
Na literatura psicanalítica os transtornos psicológicos identificados são: o Transtorno de Ansiedade Generalizada, o Transtorno Obsessivo Compulsivo, o Transtorno de Estresse Pós Traumático, a Síndrome de Pânico, o Transtorno Dismórfico Corporal, a fobia Social e o Transtorno de Ansiedade Noturna.
A psiquiatra, dra. Ana Beatriz Barbosa afirma que para alguns especialistas, o TDC está dentro do espectro do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), derivando pessoas perfeccionistas, compulsivamente insatisfeitas com o que são. Para quem vive o TDC, a imaginação de seu “defeito corporal” é tão angustiante, que se torna inútil qualquer argumento contrário.
“Tais comportamentos geram cerca de 3 a 8 horas diárias voltadas para o aspecto físico queixoso”, cita a dra.Suelen Tebaldi. Isso passa de uma vaidade comum para algo patológico. E como o investimento psíquico é muito alto, sem oferecer resposta que atenda a expectativa, a frustração pode induzir a pessoa portadora de TDC ao isolamento social, à depressão, e em casos mais graves até ao suicídio.
Como o TDC tem forte ligação com o Transtorno Obsessivo e Compulsivo, olharemos para esse último em busca de uma compreensão e tratamento.
O TOC e suas derivações estão concentrados em dois fenômenos. A obsessão e a compulsão. Assim, as obsessões geradas pelo Transtorno Dismórfico Corporal causam no paciente alto grau de ansiedade e sofrimento emocional em relação a insatisfação com o seu corpo, sem a possibilidade de controle de tais pensamentos. E para se livrar desse sofrimento, o paciente lança mão de compulsões, que nada mais são que atos ou comportamentos repetitivos, que descarregam tal tensão emocional. No caso do TOC a repetição de ações, como lavar as mãos dezenas de vezes após situação conflituosa, ou conferir várias vezes se a porta da frente da casa está realmente fechada. No caso do TDC as repetições são em torno da queixa principal. Caso seja o cabelo, ele será penteado dezenas de vezes, além de submetê-lo a diversos tratamentos seguidos. Se a queixa for peso excessivo, surgirá um ritual em busca do consumo de dietas, exercícios físicos, drogas emagrecedoras, entre outras.
A terapia psicanalítica buscará acompanhar o portador de TDC, rumo a ele mesmo perceber que tais repetições são feitas para aliviar sua tensão psicológica. E que tal tensão é sofrida pela conexão com uma origem psíquica do seu passado. Será essa “descoberta” pessoal, vivida pelo portador de TDC, que viabilizará ele identificar e consequentemente, se “libertar” de tal conteúdo reprimido. Isto viabilizará a sua ruptura com os atos compulsivos.
A Psicanálise e as Teorias Cognitivas Comportamentais frente ao TDC
Para Lucas Nápoli “a compulsão é uma tentativa de cura para os pensamentos obsessivos”. E de onde vem os pensamentos obsessivos? Para a psicanálise, tais pensamentos vem lá de trás, de outros pensamentos obscurecidos no inconsciente, originados em circunstâncias dolorosas, e que por isso, foram obscurecidos, para evitar o sofrimento. Porém, no presente, quando surge algo que faça conexão com o passado, tal vivência emerge como uma força desconhecida, ou não identificada, gerando o sintoma de obsessão compulsiva. Por isso, a proposta psicanalítica de apoiar o paciente neste encontro ou identificação, entre a dor presente com o experimento passado, para que seja vivido tal ruptura.
Logo, o foco para a psicanálise não é o sintoma compulsivo, mas sim o pensamento reprimido obscuro, para que o paciente possa ressignificá-lo e libertar-se dele.
Na proposta da Teoria Cognitiva Comportamental, com seu foco na rápida identificação do sintoma e como substituí-lo, o paciente até encontrará alívio circunstancial na substituição por outro comportamento, todavia, se o fator gerador de tal angústia não for desvendado, o sofrimento reprimido voltará a se manifestar através do outros sintomas. Assim, mesmo que a terapia comportamental seja somada a remédios psiquiátricos (que tem o seu valor para o momento de crise), o paciente retornará ao sofrimento psíquico.
Conclusão
Para uma sociedade adoecida por uma busca desenfreada por aceitação e auto-afirmação, submetida a cirurgias sobre cirurgias, pílulas sobre pílulas, e estéticas sobre estéticas, até a selfie perfeita, somos chamados a identificar dentro de nós a beleza que possuímos, independente de padrões de beleza estereotipadas pelo consumo.
Como experimentar isso? Pela busca do conhecimento pessoal. E a Psicanálise pode ser um dos instrumentos de melhor apoio para essa viagem pessoal e intransferível!
Por Jayr dos Santos Filho.