Por Jayr Santos
Introdução
Anorexia, bulimia, ortorexia… Estas são algumas das expressões dos transtornos alimentares compulsivos. Mas, além de nomes, provavelmente você tomou conhecimento de alguém que sofreu, ou sofre com um desses transtornos. É o caso de Marly e Sônia.
“Quando iniciei meu tratamento com a terapeuta, uma frase me marcou: ‘buscamos na terceira, quarta ou quinta fatia o prazer que tivemos ao comer o primeiro pedaço, mas não vamos encontrar’, conta a especialista em marketing Marly Palmieri dos Prazeres, 59. Há quase um ano, ela conta com a ajuda de uma terapeuta para manter o peso sob controle. Ela, que tem 1,70 m de altura, chegou a pesar 115 kg.” (1)
“Sou ansiosa, tenho crises de depressão, e minha relação com a comida sempre foi conturbada. Ficou claro para mim que durante muito tempo usei o ato de comer como um fator de apoio. Então decidi fazer uma cirurgia bariátrica e perder peso com calma. As sessões de terapia me ajudaram a pensar melhor nas escolhas que faço, passei a me perguntar por que decidi comer algo”, conta Sônia Ângela.(2)
Mais que Números
Tais relatos poderiam ser acrescidos de múltiplos outros depoimentos, de brasileiros que sofrem dessa neurose obsessiva que é o transtorno alimentar compulsivo. São mais que números frios. São vidas que lidam com conflitos existenciais. Mas, de onde vem tal angústia? “A psicanálise explica que o desejo compulsivo pelo consumo é um apelo inconsciente para a compensação de um vazio. Uma busca imediata para compensar uma carência afetiva”, diz o psicólogo Sylvio Ferreira.(3)
E não são poucos os que sofrem com isso! Julia Galvão (4) compartilhou no Jornal da USP que “segundo uma pesquisa realizada na Espanha, cerca de uma em cada cinco crianças entre 6 e 18 anos apresenta algum tipo de desordem alimentar (…) como anorexia, bulimia e compulsão alimentar”. A mesma investigação sinalizou tal fato entre meninas (30%) e meninos (17%). Ela ainda cita que no Brasil os dados também são alarmantes, cerca de 10 milhões de pessoas apresentam algum tipo de transtorno alimentar.”, sejam eles: o transtorno alimentar compulsivo, a bulimia ou a anorexia, entre outros.
Tipos de transtornos alimentares
Citamos a seguir a contribuição de Pamazoni NETTO (5) com os transtornos alimentares, com maior incidência de ocorrência no Brasil, bem como uma síntese de cada um deles.
O Transtorno alimentar compulsivo é o transtorno caracterizado pelo consumo repetitivo de quantidades excepcionalmente grandes de alimento, acompanhado por um sentimento de perda de controle durante o episódio compulsivo.
Já a Bulimia se caracteriza por episódio de consumo excessivo de alimentos, seguida por comportamento compensatório, em virtude da culpa e medo do ganho de peso, de indução de vômitos e/ou diarreia.
No caso da Anorexia, o medo obsessivo do ganho de peso desenvolve uma percepção irreal da sua imagem corporal. Essas pessoas muitas vezes limitam fortemente a quantidade de comida consumida por considerarem-se com sobrepeso, mesmo estando claramente abaixo do peso.
A anorexia pode causar danos cerebrais, insuficiência ou falência múltipla de órgãos, perda óssea, dificuldades cardíacas e infertilidade.
Quanto a Ortorexia, que é mais um dos transtornos comportamentais ligados à alimentação, caracteriza-se por estar voltada à busca excessiva pelo “alimento perfeito”. BRANDÃO (6) cita que: “Assim, a pessoa fica obcecada em consumir somente alimentos sem agrotóxicos, gordura, conservantes ou açúcar. Apesar de ser uma ideia boa para a saúde, tudo em excesso pode ser ruim.”
Por tal comportamento a pessoa portadora de ortorexia nervosa acaba tendo uma dieta desequilibrada e cada vez mais restritiva, gerando perda de peso, deficiência nutricional, anemia e osteoporose, como algumas das consequências em longo prazo.
Além disso, a ortorexia também prejudica a saúde mental. Estudos indicam que a ortorexia está relacionada ao transtorno obsessivo compulsivo, transtorno popularizado como TOC.
A Vigorexia é a última desta lista. O nome dessa psiconeurose é transtorno dismórfico muscular – “um problema psicológico que faz com que os pacientes se enxerguem fracos e sem músculos, quando são fortes e musculosos”, como define o site do Hospital Santa Mônica (7).
Fruto de uma distorção de sua auto-imagem, tais pacientes investem diversas horas na academia, ou praticando exercícios, para chegar ao corpo que eles consideram ideal. Este tipo de transtorno é comparado à anorexia, porque seus portadores desenvolvem uma imagem distorcida daquela que enxergam no espelho.
Entendendo o transtorno alimentar pela ótica da Psicanálise
Na compreensão freudiana, tal conjunto de transtornos está ligado às neuroses, haja visto que para o médico de Viena, já no final de século XIX, não havia grandes distinções que diferenciavam pessoas “normais” de pessoas psicopatológicas. Sendo assim, todos nós, de um modo ou outro, experimentamos certo grau de neurose. Tal ideia se justifica, pelo fato de ser a neurose caracterizada pela desorganização em uma ou mais áreas da vida, seja ela: profissional, familiar, sexual ou social, tal como ocorre na vivência do transtorno alimentar compulsivo.
A neurose obsessiva é identificada pela Psiquiatria como “Transtorno Obsessivo Compulsivo” (TOC). Tal neurose tem como característica a prática de atitudes aceitas, dentro de uma normalidade pela sociedade. Todavia, representadas pelo adoecimento psíquico, tais hábitos aceitos socialmente, se manifestam na forma de um adoecimento, aprisionando a pessoa em comportamentos repetitivos, ritualizados e obstinados. Detidos em uma ideia fixa, externalizam suas angústias na repetição de hábitos, costumes e manias, aos quais, em alguns casos, tendem à destruição de si.
Entretanto, é importante ressaltar que o neurótico, diferente do psicótico, mantém certo grau de conexão com a lucidez, pois o seu Ego ainda não se encontra comprometido a esse ponto. No caso do psicótico, ele tem total distanciamento da realidade externa, pois cria para si uma nova realidade através do seu Id, pois o Ego encontra-se fragilizado.
Na neurose, essa desorganização psíquica é expressão de uma experiência primitiva, originada na infância, e acumulada em forma de energia psíquica no inconsciente do indivíduo adoecido. Energia tal que busca sua satisfação ou manifestação no mundo real. Essa energia psíquica é recalcada pelo Ego, que tem como objetivo proteger o sistema psíquico do sofrimento em voga. Entretanto, tal recalcamento pode falhar, possibilitando que essa energia psíquica busque se escoar para o consciente, se expressando de várias formas. Entre elas, na manifestação de adoecimento, tal como nos transtornos alimentares.
Freud entendeu as neuroses como sendo de origens: fóbicas, obsessivas e histéricas. No caso do transtorno alimentar compulsivo, e suas várias manifestações, tal neurose se encontra entre as manifestações obsessivas, pois elas são marcadas pelas alterações comportamentais, voltadas à compulsão, tal como o alcoolismo, o uso de drogas (lícitas e ilícitas), inibições, entre outras.
Como isso ocorre? Frente a tal risco de desorganização do aparelho psíquico, o Ego constitui algumas defesas, que, no caso dos transtornos alimentares, se manifestam pelo viés da anorexia e bulimia, por encontrarem no corpo e na comida uma forma de manifestação.
De acordo com a psicanalista LAWRENCE (8), os distúrbios alimentares podem ser considerados como “mecanismos usados para apoiar as defesas maníacas contra a dor depressiva, associada à realidade da situação edipiana”. Isto mostra a representatividade que determinado episódio traumático, vivenciado por um indivíduo na sua infância, tenha marcado seu psique, ao ponto de, na sua vida adulta, ao sofrer determinado trauma, ou experiência dolorosa, para evitar tal sofrimento seu Ego reprime essa energia psíquica no Id, fixando tal energia em uma memória mnemônica correspondente. Seu retorno, se não recalcado pelo Ego, pode se manifestar na forma de determinado transtorno, o que inclui os transtornos alimentares compulsivos.
Considerando que as diversas manifestações de transtornos alimentares compulsivos tendem a se fixar em uma das fases mais primitivas da psicossexualidade, caberá à fase oral, tal fixação, devido a sua atividade ligada à boca, como a alimentação, gerando prazer através da ingestão e sucção.
No caso dos transtornos alimentares compulsivos, a fixação geralmente está mais relacionada à fase oral da psicossexualidade. Essa fase, que ocorre nos primeiros anos de vida, envolve atividades ligadas à boca, como a alimentação, e está associada ao prazer obtido através da ingestão e, da sucção. Todavia, em casos ligados a padrões comportamentais com perfil de rigidez, retenção, perfeccionismo e controle, tal fixação pode ocorre na fase anal.
Estas poucas linhas acentuam que, para atuar junto à população tão numerosa de brasileiros acometidos de transtornos alimentares, não basta simplesmente uma rigorosa dieta, pois, por mais balanceada que ela seja, ainda assim, o psicológico deste paciente trabalhará contra, logo que estiver diante do primeiro gatilho emocional, que lhe provoque angústia, o atirando inconscientemente ao consumo desenfreado de alimentos.
Que novos passos sejam dados para a valorização e utilização da Psicanálise, bem como a sua interação cada vez maior com outros saberes, tudo em prol da saúde mental de nossa gente.
Referências bibliográficas:
- PALAZZO, Valéria. Depoimento de uma paciente. Gatda. 2016. Disponível em http://gatda.com.br/index.php/2016/10/24/nossa-paciente-e-seu-depoimento/ Acesso em: 01.08.2024.
- PALAZZO, 2016, n.p
- SANTOS, Emy. O Consumo compulsivo é suas consequências. UOL. 13.08.2022. Disponível em: https://ne10.uol.com.br/canal/noticias/saude/noticia/2016/07/10/consumo-compulsivo-e-suas-consequencias-625126.php Acesso em: 02.08.24
- GALVÃO, Julia. Aumento de transtornos alimentares entre os jovens pode ser considerado alarmante. Jornal da USP. 23.05.2023. Disponível em: https://jornal.usp.br/radio-usp/aumento-de-transtornos-alimentares-entre-os-jovens-pode-ser-considerado-alarmante/ Acesso em: 01.08.24
- NETTO, Augusto Pimazoni. Conceito e tipos mais frequentes de transtornos alimentares. Sociedade Brasileira de Diabetes. 2021. Disponível em https://diabetes.org.br/conceito-e-tipos-mais-frequentes-de-transtornos-alimentares Acesso em: 31.07.24
- BRANDÃO, Ruy. Ortorexia: o que é, sintomas e tratamento. Zenklub. 10.02.2021. Disponível em: https://zenklub.com.br/blog/para-voce/ortorexia/ Acesso em: 01.08.2024
- Vigorexia: entenda as causas, sintomas e qual o tratamento indicado. Hospital Santa Mônica. 08.12.2020. Disponível em: https://hospitalsantamonica.com.br/vigorexia-entenda-as-causas-sintomas-e-qual-o-tratamento-indicado/ Acesso em: 01.08.2024
- LAWRENCE, Marilyn: Amando-os até a morte: anorexia e seus objetos. Livro Anual de Psicanálise XVII. São Paulo: Executiva. 2003. pág.175-186.